quinta-feira, 10 de outubro de 2013


AS MARIPOSAS E OS POLÍTICOS

JUACY DA SILVA

Há mais de 2.350 anos, Aristóteles, um dos maiores filósofos de todos os tempos, definiu o homem (onde não estavam incluídos os escravos e as mulheres) como um “animal politico”, porquanto caberia ao mesmo, enquanto ser racional, atuar para que a “polis” (cidade-estado) pudesse oferecer condições adequadas para a coletividade viver  em um determinado território. Daí surgiram a idéia e o conceito de política no sentido de promover ações voltadas ao bem-comum.

Em decorrência da prática da democracia direta, realizada através de assembléias nas praças públicas (Ágora), algumas pessoas acabavam recebendo encargos a serem realizados em nome do povo que as escolhiam. Desta forma, alguns eram mais políticos do que outros já que passavam `a condição de representantes da coletividade. Com certeza a idéia do que hoje chamamos de classe política (muito mais estamento do que classe propriamente dita no sentido marxista do termo) tem alguma relação com essas concepções de Aristóteles.

Séculos depois de Aristóteles surgem alguns estudos na área da socio-biologia, procurando entender o comportamento de animais não racionais, guiados muito mais pelo instinto do que pela razão, buscando com isso melhor entender  o comportamento do ser humano. Vários estudos sobre colmeias, primatas, grandes predadores e outros grupos tem sido usados para traçar paralelos com as ações humanas, muitas das quais destituidas totalmente de razão e ética, características intrínsecas da natureza humana.

Existem também estudos para tentar entender a razão básica que induz as mariposas a serem atraidas pela luz, onde acabam morrendo. Esses estudos são incluidos na área da fototaxia. Talvez possa existir um paralelo entre a atração que a luz exerce sobre as mariposas da mesma forma que o poder, seus privilégios, benesses e mutretas exercem sobre os políticos no sentido coletivo, a chamada classe política ou a elite do poder.

No Brasil a cada dois anos, já que as eleições locais não coincidem  com as estaduais e nacionais, nota-se uma grande  revoada, da mesma forma que as grandes nuvens de mariposas em busca da luz, de políticos, com ou sem mandato,  em busca de novas siglas partidárias, principalmente as que estão sempre, de forma oportunista, próximas ou no exercício do poder. Adversários ferrenhos de ontem tornam-se correligionários de hoje.

Afinal do poder  jorram muitos atrativos como a possibilidade de  dividir o botin da corrupção, participar do loteamento de cargos públicos, indicando parentes, amigos, correligionários, apresentar emendas aos orçamentos públicos e terem a certeza de que os recursos serão liberados, favorecendo empreiteiras que no passado ou no futuro irão financiar suas campanhas eleitorais.

O instinto de sobrevivência da  classe política é tão grande e aguçado que ja foi criada a figura das sublegendas e a idéia do alinhamento , no sentido de que é bom sempre o povo escolher políticos locais e estaduais que estejam no mesmo agrupamento partidário do governo federal, mesmo que as ideologias sejam diametralmente opostas, o que vale é o oportunismo politico.

Possivelmente para melhor compreender o comportamento, as ações e atitudes da elite do poder, principalmente dos políticos profissionais, seria bom estudarmos como agem, além das mariposas, outros animais como os escorpiões, os camaleões, as hienas, os abutres, os sangue-sugas, os vampiros/morcegos e as raposas. A sócio-biologia com certeza irá oferecer uma grande contribuição `a ciência política, principalmente no Brasil.

JUACY DA SILVA, professor universitário, Titular e aposentado UFMT, mestre em sociologia. Email professor.juacy@yahoo.com.br Blog www.professorjuacy.blogspot.com Twitter@profjuacy

segunda-feira, 7 de outubro de 2013


SEGREDOS DE POLICHINELO

JUACY DA SILVA

Costuma-se dizer que segredo de polichinelo é algum  fato que não é segredo para ninguém  a não ser para quem precisa representar um papel determinado em uma comédia ou farsa. Segundo alguns estudiosos da literatura os segredos de polichinelo comportam três facetas: a) só é segredo quando muito para os personagens no palco (neste caso os ocupantes do poder); b) é anunciado por um/a  personagem cômico, que pelas suas palavras consegue despertar o riso da platéia que sabe que não existe nenhum segredo dígno de ser revelado, apenas uma encenação (no caso da democracia a platéia é o povo) c) a revelação do segredo, que não é segredo, é direcionado ao público, na ilusão de que assim irá atrair sua atenção (no caso da encenação política, o público é o povo, principalmente os eleitores).

Este poderia ser o quadro de referência para interpreter os fatos que tanto tem indignao e continuam indignando o Governo Dilma, incluindo a própria presidente, vários de seus ministros e dirigentes de grandes estatais com a suposta   espionagem que inicialmente teria sido feita pela Agência Nacional de Inteligência dos EUA e veementemente criticada pela presidente brasileira em sua recente meia hora de fama na abertura da 68a. Assembléia da  ONU.

Os fatos foram “revelados” como um segredo de polichinelo pelo ex-agente daquele orgão de inteligência americano e teria ocorrido há mais de um ano, sem que os organismos de inteligencia e contra-inteligência brasileiros tenham detectado a tempo. Tudo veio a tona porque os meios de comunicação resolveram esquentar a matéria.

Nem bem a indignação do Governo brasileiro se arrefeceu, eis que novamente a mesma   rede de TV com o estardalhaço de sempre, mencionou mais um segredo de polichinelo,  além de bisbilhotar os email e telefones da presidência da República e da Petrobrás, eis que novamente, o país foi “abalado” pela notícia de que na mesma   época não apenas a Agência  de Inteligência  Americana, mas também os serviços de inteligência do Canadá, da Inglaterra, da Austrália e da Nova Zelandia, haviam espionado o Ministério das Minas e Energia e várias empresas estatais e organismos a ele vinculados. Com certeza também o Brasil é espionado pela China, Rússia, países do G7, G20 e tantos outros que tenham interesses vinculados ao nosso país ou buscam ocupar ou ampliar seus espaços no cenário internacional. Todo mundo sabe disso com excessão do Governo Dilma. É como a estória do marido ou da esposa traidos, sempre são os últimos a saber ou fingem que não sabem.

A fúria governamental veio novamente `a tona e a presidente tornou a “exigir” explicações agora do Canadá. Afinal, o que está em jogo é a soberania nacional afrontada. Na esteira desses segredinhos de  polichinelo que tanta celeuma tem causado ao governo Dilma, escodem alguns fatos graves, maiores do que a espionagem em si. Refiro-me ao completo despreparo do Governo em dotar o país de mecanismos e serviços de inteligência e contra-inteligência que coibam tais ações. Para isso são necessários investimentos, principalmente em ciência e tecnologia,na formação de quadros e no planejamento deste e de outros setores relacionados a esta area.

Desejar que outros países parem de espionar é algo sem sentido, afinal, também o  Brasil possui seus serviços de inteligência que atuam tanto dentro do país quanto no exterior, apesar das limitações e eficácia de tais serviços.

Quanto aos segredos relacionados com as atividades do Ministério de Minas e Energia, da Petrobrás e de tantos outros setores da economia, da sociedade e do governo brasileiro, a maior parte nem precisa de espiões para detecta-los, afinal tanto os EUA quanto a maioria dos países desenvolvidos dispõem de meios científicos e tecnológicos como satélites poderosos, incluindo os chamados satélites espiões, que já há muito mapearam o solo, sub-solo e plataforma maritime brasileira. Afinal há várias décadas tais países consideram o espaço  cibernético  como um possível teatro de Guerra. Por assim considerarem têm investido centenas de bilhões de dolares para desenvolver sistemas sofisticados tanto para capturar informações de outros paises quanto sistemas de contra-espionagem que dificultem ou impeçam que seus interesses econômicos, estratégicos e militares sejam ou estejam vulneráveis `as ações de espionagem de outros paíeses.

Enfim, tudo o que esta acontecendo e as “reações” do  governo brasileiro não passa de segredos de polichinelo e ocorre na forma de um grande teatro, onde os personagens desta comédia ou farsa são nossos governantes e a grande platéia os eleitores, principalmente tendo em vista as eleições gerais de 2014. A figura do inimigo externo é muito apropriada para despertar o etnocentrismo, o nacionalismo, o orgulho nacional e um sentidmento de ódio contra os poderosos que teimam em usar osconhecimentos de que dispõem em disfavor dos países subdesenvolvidos ou emergentes!

JUACY DA SILVA, professor universitário, fundador, titular e aposentado UFMT, mestre em sociologia. Email professor.juacy@yahoo.com.br Blog www.professorjuacy.blogspot.com Twitter@profjuacy

quarta-feira, 2 de outubro de 2013


DEFESA ECONÔMICA E SOBERANIA

JUACY DA SILVA

Por ocasião de seu discurso na Abertura dos trabalhos da 68a. Assembléia Geral da ONU, realizada na última semana em New York, a Presidente Dilma enfatizou suas críticas aos EUA quanto `a espionagem que aquele país supostamente tem feito em relação ao Brasil. Este foi mais um desdobramento de uma tentativa de fabricar uma crise diplomática com os EUA, incluindo o cancelamento da visita de Estado que a mesma faria neste mes.

Por diversas vezes em seu discurso a Presidente relacionou a espionagem cibernética aos direitos humanos e a soberania nacional. Parece que na visão da mesma espionagem é algo raro e recente nas relacões internacionais e que apenas os EUA realizam essas atividades. Alguém precisa dizer a nossa Presidente que a função precípua da KGB (Rússia), do Mossad(Israel),dos servicos secretos e inteligência da China, da Inglaterra e dos demais países desenvolvidos e vários em desenvolvimento, incluindo o Brasil com a ABIN, sucessora do antigo SNI, é coletar informes, informações tanto no âmbito interno quanto externo e oferecer condições para que as autoridades, principalmente quem ocupa o mais alto cargo de direção de cada país possam decidir, conhecendo todas as facetas da realidade.

Isto é o que fazem os organimos de inteligência do mundo todo, incluindo os que integram o sistema de inteligência americano, onde a cada ano são investidos mais de 140 bilhões de dólares em segurança e defesa cibernética, enquanto o Brasil investe pouco mais de 90 milhões, razão pela qual nossos sistemas de inteligência e de defesa cibernéticos não dispõem de  meios e “expertise” sequer para idenfificar que os email e comunicação da Presidência da República e das companhias estatais como o Petrobrás podem ser objetivo de espionagem política e commercial.

Parece que a proposta apresnetada pela presidente Dilma no sentido de uma governança  do espaço cibernético, a ser exercido pela ONU não empolgou os chefes de governos e de estado que participaram da Assembléia Geral da ONU que estavam mais preocupados com as questões dos conflitos no Oriente Médio e outros temas que já vem sedo objeto das últimas assembléias, incluindo questões ambientais e comerciais.

Talvez o tema proposto e o aguçamento de um conflito de interesses entre Brasil e EUA sejam de grande utilidade para a campanha eleitoral e poucos resultados práticos serão colhidos nesses foruns internacionais. De outro lado, existem outros aspectos muito mais sérios em nosso país e que afetam nossa soberania de forma mais direta do que a denuncia de que os serviços de inteligência americanos estejam bibilhotando os email da presidente ou os segredos de polichinelo da Petrobras, cujo valor patrimonial sofreu perda de mais de 212,9 bilhões  em três anos de Governo Dilma.

Em 2010 a Petrobras reforçou a capitalização com 120,2 bilhões de reais do BNDES e Mercado acionário. Naquele ano a maior estatal brasileira, que a presidente ficou furiosa pela suposta espionage, americana, era a terceira maior empresa petrolífera mundial e com seu patrimônio caindo de 453,8  bilhões de reais em 2010 para 240,9 bilhões em agosto de 2013, despencou para a décima posição entre as empresas petrolíferas mundiais.

Com certeza esta queda é  muito mais decorrente do aparelhamento politico e partidário da empresa e pela gestão nem sempre eficiente do que por estar sendo espionada por governos estramgeiros. Ao lado da questão da gestão das empresas estatais, um outro fator afeta muito mais a nossa soberania do que a espionagem cibernética. Refiro `a desnacionalização acelerada de nossa economia, onde a cada dia o país perde mais o controlee m setores vitais e estratégicos.

Entre 2004 e 2012 (Governos Lula e Dilma) nada menos do que 1.296 grandes e médias empresas de capital genuinamente nacional foram adquiridas ou incorportados por empresas multinacionais, das  quais 70% americanas e o restante européias, japonesas, canadenses e algumas da América Latina, China e até da África do Sul.

No mesmo periodo a remessa de lucros das empresas multinacionais atuantes no Brasil representou 410 bilhões de dólares, muito mais do que os investimentos diretos oriundos do exterior, complementado pelo fato de que 40% do comércio internacional do Brsil (importações e exportações) são feitos entre empresas multiacionais instaladas no Brasil e suas matrizes no exterior.

Esse processo de desnacioalização e também de desindustrialização está facilitando a formação de grandes oligopólios em vários setores com prejuizos diretos aos consumidores nacionais. Esses aspectos não preocupam a Presidente  Dilma, o PT e nem os demais partidos que fazem parte de seu governo.

Concluindo, se a Presidente anda tão preocupada com a questão da soberania nacional e os direitos humanos, onde os direitos do consumidor também estão incluindos, talvez seja o momento de deixar de jogar para a platéia e abrir um debate nacional sobre a questão da defesa da economia nacional, antes que o Brasil volte a condição de colônia dos países desenvolvidos.

JUACY DA SILVA, professor universitário, titular e aposentado UFMT,  mestre em sociologia, Email professor.juacy@yhoo.com.br Blog www.professorjuacy.blogspot.com Twitter@profjuacy