terça-feira, 10 de dezembro de 2013


EDUCAÇÃO DE QUALIDADE

JUACY DA SILVA

O Brasil, `a semelhança de tantos outros países emergentes ou em processo de desenvolvimento, tem enfrentado, continua  enfrentando e, com certeza, vai enfrentar diversos desafios, alguns mais simples e outros extremamente graves rumo a uma sociedade economicamente desenvolvida, ambientalmente sustentável , socialmente justa e políticamente responsável.

Os desafios mais importantes e difíceis de serem resolvidos  estão nas áreas da educação, saúde, segurança púbica, previdência social, meio ambiente e infraestura, além, é claro, das questões políticas, organização e funcionamento do Estado ou da chamada máquina pública. Portanto, podemos perceber que tais desafios exigem planejamento de  médio e longo prazos, recursos humanos qualificados e uma classe dirigente comprometida com a ética e a eficiência governamental. É fundamental também que em todo este esforço e caminhada haja participação popular e transparência; afinal, quem paga a conta de tudo isto é a população através de uma pesada carga tributária e tem todo o direito de esperar e exigir de seus governantes seriedade e respeito em relação `a coisa pública.

Há poucos dias a pauta dos meios de comunicação, que durante meses foi ocupada apenas pelo  julgamento dos  envolvidos com o mensalão e a prisão de vários dos condenados, alguns outrora figuras importantes no cenário politico, partidário, governamental e empresarial, um verdadeiro circo nacional, acabou dando também certa ênfase aos resultados da avaliação de estudantes com 15 anos,  realizada pela OECD/OCDE denominada de PISA em ingês, onde o Brasil continua atingindo resultados ridículos.

Este desempenho vergonhoso vem de há muito tempo, incluindo os últimos 11 anos de governo do PT no plano nacional. Em 2006, por exemplo, os resultados do PISA que naquele anocuja ênfase estava voltada para as ciências, o Brasil ocupava a 52a. posição entre 57 países participantes e em 2012 nossa posição geral foi de 58a. entre 65 países.

Praticamente nos mesmos dias da divulgação dos dados do PISA, o IBGE divulgou uma publicação que é um repertório muito rico em dados sócio-econômicos, denominada “Síntese dos Indicadores Sociais, 2012”, onde estudiosos,  gestores públicos e governantes  deveriam analisar em profundidade para identificar a nossa realidade conjuntural.

Alguns dados chamam a atenção e podem explicar em parte o desempenho dos estudantes brasileiros quando em testes internacionais e reflete a baixa qualidade de nossa educação. De acordo com esta síntese dos indicadores sociais existiam 9,6 milhões de jovens com idade  entre 15 e 29 anos (19,6% do total da população nesta faixa etária)  que não estavam nem estudando e nem trabalhando. No Nordeste são 35,2%,  nesta triste situação e na faixa de 18 a 24 anos este percentual chega a 23,4%.a nível de Brasil.

Quando o foco da análise é direcionado para a questão de gênero, a situação beira as raias do absurdo pois das adolescents entre 15 e 17 anos nada menos do que 59,6% nem trabalham e nem estudam e na faixa de 25 a 29 este contingente chega a 76,9%. A maior razão para esta situação é a existência de filhos: 30% das adolescentes entre 15 e 17 anos já são mães e 51,6% entre 18 e 24 anos também informaram terem um ou mais filhos. Esta seria a razão maior para terem abandonado a escola e por não estarem trabalhando. Como cuidam e orientam seus filhos só Deus sabe.

Isto é muito grave e demonstra que apesar das políticas compensatórias do governo e tantas outras migalhas que são distribuidas ao povo, na busca de manipular a vontade popular e garantir a permanência dos mesmos partidos e grupos no poder, uma grande parcela da  população brasileira, exatamente em uma faixa etária que exige independência pessoal, através do trabalho e do estudo, continua completamente marginalizada e excluída. Deste contingente 32,4% ou seja 3,110 milhões de jovens sequer concluiram o ensino fundamental  e com certeza não possuem nenhuma qualificação para um mercado de trabalho que se moderniza e se torna  mais complexo a cada dia. Diante disso é fácil  entender por que 40% dos adolescents e jovens entre 15 e 29 anos que trabalham ganham menos do que um salário mínimo de R$622,00 em 2012 e fazem parte da clientela do bolsa família e outras formas  assistencialistas do governo.
Voltarei a este tema oportunamente.

JUACY DA SILVA,  professor universitário, titular e aposentado UFMT, mestre em sociologia.Email professor.juacy@yahoo.com.br Blog www.professorjuacy.blogspot.com Twitter@profjuacy

 

 

 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013


EDUCAÇÃO: MAIS UMA VERGONHA

JUACY DA SILVA

Desde 2.000 a cada três anos a OECD –União Européia, realiza uma avaliação de estudantes de seus países-membros e de outros continentes. Em 2012 foi realizada pela quinta vez o PISA , sigla em ingles que significa avaliação de desempenho de alunos com 15 anos e que geralmente estão no início do ensino médio.

Os resultados que vieram a público há poucos dias representam a avaliação de mais de 500 mil alunos de 65 países, que representam em torno de 80% do PIB mundial, inclusive o Brasil. Estiveram presentes alunos das redes públicas e particulares, em diferentes níveis de gestão e regiões, de ambos os sexos e diferentes níveis sócio-economicos. O PISA é uma verdadeira  radiografia da qualidade da educação  nas áreas de ciências, leitura e matemática e, em parte, serve para que os respectivos governos possam identificar as deficiências de seus sistemas educacionais e buscarem uma educação de qualidade.

O Brasil, como  vem  acontecendo há algumas décadas, está sempre no “rabo” da fila, uma vergonha para um país cujos governantes tanto se ufanam de suas ações e jamais se preocupam   em perceber como nosso país se encontra  em relação ao resto do mundo.

Nesta última avaliação do PISA, o Brasil ficou na 58a. posição em matemática, que foi a área de enfoque principal e 53a em leitura e ciências. Apenas 7 países dos que participaram da avaliação obtiveram resultados piores do que o Brasil,  enquanto 57  estão `a nossa frente. Apesar disso  somos a oitava economia do planeta  e o 72a país com maior nível de corrupção e um dos primeiros em violência e mortes no trânsito e homicídios.

Curioso em tudo isso é que o Brasil foi considerado como o pais que mais “avançou” em matemática. Em doze anos passamos de 334 pontos  para 391, ou seja, 57 pontos;  em leitura de 396 pontos para 410, apenas 14 pontos e em ciências de 375 para 405 pontos.  Fazendo os cálculos , em doze anos,  a média  anual de de melhoria em pontos foi de 4,75 em matemática; de 1,17 em leitura e 2,5 pontos em  ciências.

No entanto, apesar do Ministro da Educação mostrar-se otimista e quase eufórico quanto ao desempenho do Brasil, quando comparamos os resultados de 2009 (final do governo Lula) e 2012, meados do Governo Dilma, a situação ainda é mais vergonhosa. Em leitura passamos de 412 pontos em 2009 para 410 em 2012; em matemática o salto foi de 386 para 391 pontos e em ciências permanecemos no mesmo nível, ou seja, 405 pontos.

Se considerarmos os resultados obtidos pelos estudantes sul coreanos, cujas médias foram em matemática  554 pontos; leitura 536 pontos  e ciências 538 pontos percebemos que existe uma grande diferença entre os dois países. A Coréia do Sul ocupa a 5a. posiçåo e o Brasil  58a. , ressaltando que por volta das décadas de 1950 e 1960 a Coréia do Sul apresentava indicadores educacionais semelhantes ao Brasil, inclusive altas taxas de analfabetismo e naquela época estava sendo fustigada por uma Guerra interna, que acabou provocando a divisão do país entre as Coréias do Sul e do Norte.

Se consideramos os “avancos” conseguidos pelo Brasil nos últimos doze anos e o diferencial de pontos entre o Brasil e a Coréia do Sul, vamos precisar 34,3 anos para atingirmos os resultados que aquele país asiático conseguiu em 2012 em  matemática; 53,2 para alcançarmos a marca  conseguida em ciências e 107,7 anos para conquistarmos os resultados obtidos pelo referido país em leitura.

Todavia, é importante separar no periodo  considerado, os primeiros três anos do Governo FHC e nove anos seguintes de governo do PT, sete de Lula e dois de Dilma. Se o leitor tiver um pouco mais de curiosidade pode também analisar os resultados do PISA  durante o atual governo (Dilma) quando em leitura houve queda de desempenho de 412 pontos emm 2009 para 410 pontos em 2012; em ciência nada mudou, tanto em 2009 quanto em 2012 o resultado foi de 410 pontos, e em matemática passou de 386 para apenas 391.

Aplicando-se o mesmo raciocínio anterior, ou seja, quantos anos o Brasil vai precisar para atingir os resultados que a Coréia do Sul conseguiu em 2012, tendo como parâmetro do “excelente” desempenho durante o governo do PT, que tanto entusiasmo causou ao Ministro da Educação, em matemática vamos precisar 41,8anos; em ciências 78,2 anos e, pasmem, em leitura 157,5 anos. Será que nossa educação está no rumo certo?

Um ultimo aspecto que deveria envergonhar nossos governantes. Enquanto apenas 6.6% dos estudantes coreanos obtiveram notas de no máximo nível um (em seis níveis) em ciências, 53,7% dos estudantes basileiros ficaram do nível um para baixo. Em matemática  67,1% dos estudantes brasileiros  ficaram do nível um para baixo e apenas 9,1% dos coreanos estão nesta situação. O mesmo  ocorreu em leitura: Brasil nível um ou abaixo ficaram 18,8% e Coréia 3%.

O desempenho dos estudantes dos diversos Estados, principalmente das regiões norte, nordeste e de MT, ficaram abaixo da média nacional. Ai podemos imaginar o que nossos governantes estão construindo para assegurar um desenvolvimento verdadeiro pelas próximas décadas. Educação exige qualidade de verdade e não demagogia e mentiras oficiais.

Enfim, os resultados do PISA apenas confirmam o que tem acontecido no ENEM e  o que  tantos outros estudos vem demontrando: a qualidade da educação brasileira é extremamente baixa e compromete nosso futuro enquanto nação, pois afeta diretamente os aspectos da geração de conhecimento e no nosso desenvolvimento científico e tecnológico. Parece que nossos governantes de plantão ainda não perceberam o crime que está sendo cometido contra nosso futuro!

JUACY DA SILVA, professor  universitário, titular e aposentado UFMT, mestre em sociologia, Email professor.juacy@yahoo.com.br Blog www.professorjuacy.blogspot.com Twitter@profjuacy

 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013


OS CUSTOS DA VIOLÊNCIA

JUACY DA SILVA

Existem duas realidades que acompanham o ser humano e também os animais não racionais ao longo da vida, desde os primórdios da criação (para quem acredita no criacionismo) ou da pré-história: a violência e o sexo. Muitas vezes ambas aparecem como parte de uma mesma realidade e em outras estão separadas.

A estória mais emblemática é o que aconteceu entre Adão e Eva, que ao descobrirem o sexo, ainda vivendo no paraiso, acabaram sendo expulsos do Jardim do Édem, um castigo imposto pelo descumprimento das regras estabelecidas por Deus. Para todos os atos que realizamos que não estejam de acordo com as regras estabelecidas, mesmo que aparetemente distituídos de uma violência imediata, o castigo surge como uma forma de punição e a idéia da regeneração ou modernamente a re-educação é o corolário natural.

Quem comete um delito ou afronta os padrões de comportamento estabelecidos pela sociedade em cada momento deve expiar seus erros, deve penitenciar-se, daí o termo “penitenciária”, lugar  para onde são levados os criminosos, deliquentes, enfim, quem cometeu atos contra tais padrões de comportamento, estejam os mesmos estabelecidos em Leis ou simplesmente em costumes e tradições seculares ou até milenares. Neste particular é interessante notar que a grande maioria das pessoas que acabam indo para as prisões fazem parte das camadas mais “baixas”da sociedade. As elites geralmente escapam dessas punições, pois são elas quem elaboram as Leis e se apoderam das estruturas do Estado a seu favor. O que acontece atualmente na penitenciária da Papuda em Brasília é uma excessão, apenas para confirmar a regra geral!

Para  quem gosta de religião, principamente os cristãos, se bem que todas as religiões neste aspecto acabam sendo praticamente iguais ou semelhantes, pode usar, por exemplo, a Bíblia, que é um  livro sagrado, para acompanhar o surgimento e evolução da violência, inclusive a sexual, tanto no velho quanto no novo testamento. Em seu início está o relato da expulsão de Adão e Eva  do Paraiso e o castigo imposto a ambos e as gerações que haveriam de se  lhes suceder para punição do pecado original e o final do novo testamento inclui o livro de Apocalípse com suas figuras enigmáticas e cenas de extrema violência. Portanto, por mais que cada ato de violência acaba chocando, uns mais outros menos, de forma mais intensa quem esteja diretamente relacionado com o mesmo e suas consequências, a violência  é uma companhia sempre presente e indesejada em nossas vidas.

Mas esta constatação não  deve induzir-nos a banalizar a violência e aceita-la de forma passiva.. É importante que possamos identificar as causas  fundamentais de todas as manifestações de violência, suas consequências, incluindo seus custos econômicos, financeiros, psicológicos , enfim, custos humanos para podermos, como sociedade organizada, estabelecer os limites toleráveis, evitando que acabemos regredindo para períodos pre-históricos ou no início da história, onde a barbárie era o símbolo da convivência humana, onde o que imperava era a Lei do mais forte e a forma de punição era   Lei mosaica, da “justiça” feita com as próprias mãos, a vingança do olho por olho e dente por dente. 

Para que isto não seja novamente uma forma de coibir os delinquentes e criminosos, é importante que o Estado, como forma organizada da sociedade, não permita e nem participe da impunidade. Esta sim, a causa maior da proliferação da violência e de tantos atos anti-sociais. Se o Estado não garante os direitos fundamentais das pessoas, incluindo a vida, a liberdade de ir e vir, a liberdade de escolha, a propriedade,  enfim, a segurança para vivermos em coletividade, estaremos caminhando para a falência institucional e o aumento da violência é uma decorrência natural.

É fundamental, portanto, que a questão da violência seja incluida na agenda política e institucional em todos os níveis de governo, nos âmbitos  nacional, estadual e municipal. Esta inclusão representa também a elaboração de diagnósticos atualizados, pois as  formas de violência e de criminalidade mudam rapidamente com as transformações sociais e tecnológicas, em planos bem elaborados e articulados entre os três níveis de governo , planos esses que devem  conter ações de curto, médio e longo prazo e investimentos para poder realizar o enfrentamento  dos desafios que tanta intranqulidade, medo e as vezes perplexidade causam nas pessoas.

É importante que isto seja feito antes que o descrédito da população em relação ao Estado, suas instituições e os governantes possam induzir a revoltas populares e ao surgimento de aparatos paralelos que pretendam substituir o Estado, que neste e em tantos outros aspectos da vida nacional, está praticamente falido. Os linchamentos, os esquadrões da morte, as  milícias, os “soldados” do  tráfico, a corrupção, o desrespeito `a Lei de forma clara e acintosa, tudo isso faz  parte dos custos que a sociedade caba pagando pela escalada da violência.

Podemos quantificar quanto custa manter um grande aparato de segurança pública ou privada; os custos econômicos, financeiros e patrimonial da escalada da violência no trânsito ou quanto custa manter um Sistema penitenciário que gera mais violência e pouco faz pela “reeducação” dos detentos e a sua re-inserção na sociedade.. Quanto custa o sofrimento e a dor de uma família pelo assassinato, estupro, espancamento, assalto ou sequestro de uma pessoa?

Como vemos este é um desafio para ser encarado com seriedade e não com idéias superficiais e propostas demagógicas, como costumam fazer nossos governantes e candidatos em épocas eleitorais. Dia desses li uma frase que dizia mais ou menos assim, “enquanto o povo sofre, os políticos e governantes deliciam-se com as benesses do poder custeadas pelos contribuintes e população sofredora”!

Em uma próxima oportunidade tentarei apresentar alguns números ou qual é o custo da violência e da insegurança, tanto no Brasil quanto em outros países, com a ressalva de que boa parte desses custos não são contabilizados efetivamente.

JUACY DA SILVA, professor universitário, titular e aposentado UFMT, mestre em sociologia. Email professor.juacy@yahoo.com.br Blog www.professorjuacy.blogspot.com Twitter@profjuacy