COLANDO OS CACOS
JUACY DA SILVA
Parece
que o Brasil entra em mais uma nova fase de sua história e, como em tantas
outras, muitas coisas podem mudar, algumas para melhor e outras para pior, com
certeza. Alguns dizem que as crises e os conflitos são parteiros da história,
pois exigem que os países tenham a capacidade de se reinventarem.
Este
é um novo momento em nossa história politica quando velhos caciques e raposas
perderam as eleições, velhos esquemas se mostraram ineficientes e partidos, até
entao considerados “fortes” e donos da verdade quase desapareceram, como no
caso do antigo e novamente MDB e o PSDB.
Quanto
ao PT, surgido em pleno periodo de governos militares, fruto da luta sindical,
depois de diversas tentativas chegou ao poder em 2003, após tres derrotas
consecutivas de LULA, seu líder maior e que nesta eleição teve que assistir de
dentro de uma prisão a vitória da extrema direita através do voto de milhões de
eleitores, mesmo que em percentual bem menor do que de suas duas vitórias e da
primeira vitória de Dilma, sua sucessora, em 2010.
Mesmo
sendo derrotado, para tristeza de seus algozes, o PT ainda demonstra um grande
fôlego, um capital politico e eleitoral considerável que lhe garantiu vitórias importantes
em todos os estados do nordeste, além de Tocantins e do Pará, onde Fernando
Hadad foi o vencedor no segundo turno.
De
uma figura de pouco brilho na Câmara Federal durante sete mandatos, integrante
do chamado “baixo clero”, quase invisível para a opiniao publica, tendo passado
por diversos partidos, seu partido atual, um dos até poucos meses considerado
nanico, o PSL, antes o PSC que não topou apostar da candidature de Bolsonaro,
demonstrou alguns aspectos e fatos novos na politica brasileira.
Primeiro,
ficou a certeza de que tempo de TV e um monte de partidos tradicionais não pavimentam
o caminho da vitória. Através de uma coligação considderada pífia o PSL, melhor
dizendo, Bolsonaro conseguiu “desbundar” o MDB de Temer e Romero Jucá e o PSDB
de Geraldo Alkmin que tinha quase todo o tempo do mundo de propaganda eleitoral
no rádio e TV e como aliados diversos partidos fisiológicos do chamada “centrão”, que já
estiveram com Lula, com Dilma, com Temer e com certeza estarao com Bolsonaro.
A
votação inexpressível de Alkimin em todos os estados, inclusive em São Paulo,
onde ele próprio já exerceu o cargo de governador por quatro mandatos e o PSDB
é “dono do pedaço” há mais de duas decadas não impediram que Bolsonaro o
derrotasse no primeiro turno de forma vergonhosa.
Parece
que o PSDB entrou dividido na disputa presidencial em 2018 e saiu não apenas
derrotado mas estraçalhado, incluindo a derrota de alguns de seus caciques em
diversos estados como Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás, Paraná e no nordeste inteiro.
Os
tucanos que em 2014 elegeram 54 deputados federais viram a bancada cair para
quase a metade nas eleicoes de 2018, quando conseguiram eleger apenas 34
deputaods, passando da condição de terceira maior bancada há quatro anos para a
nona, empatado com o DEM a partir de 2019.
A
mesma sorte teve o MDB que caiu da segunda posição em 2014 quando elegeu 66
deputados federais para 34 na eleição deste ano. Pela ordem, os quatro partidos
que mais perderam cadeiras na câmara federal nas eleições de 2018 foram: MDB
32; PSDB 25; o PTB 15 e o PT 13 e o único que realmente ganhou um espaço de
grande destaque foi o PSL, partido de Bolsonaro, que em 2014 elegeu apenas um deputado federal e
nesta eleição passou `a condição de segundo maior partido na Câmara Federal,
com 52 parlamentares e que com a sinuca de bico em que se encontram 14 partidos
que elegeram 41 deputados mas não conseguiram superar a chamada clausula de
barreira, poderá receber logo no inicio da legislatura mais de uma dezena de
parlamentares eleitos por esses partidos e que desejam mesmo é estarem `a
sombra do poder, de onde pode jorrar leite e mel, sonho acalentado por politicos
fisiológicos que agem como mariposas em relação `a luz.
Diferente
de Collor de Melo que também foi eleito por um partido na época com pouca expressão
politica e eleitoral, não tendo formado uma base parlamentar forte no Congresso e acabou sofrendo o “impeachment”,
Bolsonaro, chega ao poder com uma base parlamentar, principalmente na Câmara
Federal com força suficiente para, se não conseguir aprovar tudo o que deseja,
pelo menos para ter espaço suficiente para navegar em céu de brigadeiro, se não
meter os pés pelas mãos, com propostas que dividam não apenas o Congresso mas,
principalmente, o país que entrou dividido e saiu dilacerado dessas eleições.
Em
uma democracia, quem ganha também deve
respeitar quem perde e não tentar eliminar os adversários como se inimigos
fossem, afinal, em uma democracia podemos estar divididos em termos de ideologias,
idéias, propostas e modelos de desenvolvimento para o país, jamais em Guerra real,
onde, o que conta é a destruição ou até a eliminação fisica do adversário.
Quando isto acontece, estamos na ante sala de um regime totalitário em detrimento
das instituições do estado democrático e de direito. Aí o caos substitui a
ordem democrática e a pluralidade, como atualmente acontece na Venezuela, cujo
ciclo de violência politica teve inicio com a chegada ao poder, via eleições, até
então livres, de um coronel do exército que acabou dando auto golpes,
destruindo os poderes judiciario e legislative e perseguindo implacavelmente a
oposição, deixando um país arrazado para seu successor que continua sua obra
devastadora no país vizinho.
O
Brasil continua dividido não apenas em termos politicos e eleitorais, mas também
em termos economico, racial, social, cultural e religioso, o momento deve ser
de tentarmos colar os cados do que resta de um país sofrido em meio a tanta violência,
corrupção e desagregação institucional. Se antes o mapa do Brasil era dividido
entre azul e vermelho, a partir dos resultados dessas eleições continuará
dividido entre verde e vermelho, onde o verde apenas ocupou o lugar do azul,
com a debandada do centro rumo a direita e extrema direita.
Dias
nebulosos e sombrios ainda rondam os céus de nosso país, quem viver verá!
JUACY DA SILVA,
professor universitario, mestre em sociologia, articulista e colaborador de
diversos veiculos de comunicação. Email professor.juacy@yahoo.com.br
Twitter@profjuacy Blog www.professorjuacy.blogspot.com
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