terça-feira, 9 de fevereiro de 2016


FRATERNIDADE, SANEAMENTO E JUSTIÇA SOCIAL

JUACY DA SILVA

Há pouco mais de 50 anos,  mais precisamente em 1962, em  Natal, RN,  no início da quaresma, alguns padres realizaram o que, acabaria se transformando na Campanha da Fraternidade, a partir de 1964 em caráter  nacional.

Esta iniciativa foi encampada pela Cáritas Brasileira e pela CNBB,   sob a influência do Concílio Vaticano 2, a Igreja Católica no Brasil procurava  uma nova forma de evangelização, voltando-se de uma forma mais direta para as necessidades do povo, incluindo uma mensagem do Papa, como forma de apoio `a esta forma de ação, denominada de caridade libertadora.

Ao longo dessas décadas a Campanha da Fraternidade pode ser dividida em tres fases. A primeira, abordando temas voltados para uma busca da renovação interna da igreja que vai de 1962 a 1972; a segunda cobrindo  temas que denotam a preocupação da Igreja com a realidade social do povo,  denunciando o pecado social e buscando a promoção da justiça social,  esta fase vai de 1973 a 1984 e a Terceira fase que vai de 1984 até  este ano de 2016, quando são abordados temas que representam as situações  existenciais do povo, incluindo questões como água, terra, negros, mulheres, trabalho, emprego, juventude, educação, encarcerados, idosos, deficientes, enfim, um grande mosaico  que representa a vida de nossa gente, com seus sofrimentos, angústias  e ao mesmo tempo a  esperança  de um mundo e uma sociedade melhores.

A  Campanha da Fraternidade deste ano, que tem início na próxima quarta feira de cinzas e deve encerrar-se no final da semana santa, é a quarta realizada sob o manto do ecumenismo, como aconteceu com as Campanhas de 2000; 2005; 2010. É, portanto uma Campanha que conta coma participação das igrejas evangélicas pertencentes ao CONIC  Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil, onde estão incluidas as igrejas Luterana, Episcopal Anglicana, Sirian Ortodoxa Antioquia, Aliança de Batistas do Brasil, Presbiteriana Unida, visão mundial e fundo misereor. Como se percebe, um conjunto de igrejas evangélicas, juntamente com a Igreja Católica, com apoio da CNBB, que representam  uma  grande parcela, na verdade a maioria do povo brasileiro.

O Tema deste ano está voltado para a questão ambiental, tendo como referenciais básicos  a Enciclica Verde do Papa Francisco e o programa de desenvolvimento sustentável, lançado recentemente pela ONU para dar continuidade aos objetivos do milênio. A enunciado do tema “ Nossa casa comum, nossa responsabilidade”  e o Lema “ Quero ver o direito brotar como fonte e corer a justiça qual riacho que não seca”. Tema e lema representam  um chamamento para as condições de vida no planeta, a partir da realidade concreta de cada país, cada estado, cada município, cada bairro ou paróquia, enfim, nossa  casa comum.

O referencia da Capanha é a questão do saneamento básico no Brasil, incluindo um diagnóstico da situação, as implicações da falta de saneamento como uma realidade degradante e que ofende profundamente a dignidade do ser humano e também,  o saneamento como um direito das pesssoas, como expressam  recententes resoluções e documentos da ONU. Sem saneamento não pode exisitr saúde, sem saneamento não existe direitos humanos, sem saneamento não existe vida dígna, sem saneamento estamos degradando o planeta, nossa casa comum.

A Campanha desenvolve-se  segundo uma metodologia utilizada pela CNBB  há várias décadas  e inclui  tres dimensões: Ver, julgar e agir, indo desde o diagnóstico da situação, ao planejamento das ações, incluindo os planos nacional,  estaduais e municipais de saneamento e também  a participação popular nas ações públicas e privadas.

No Brasil 61%  da população, ou seja, aproximadamente 125 milhões  de pessoas não contam com coleta de esgoto; 13% ou 26,5  milhões tem coleta mas não tem tratamento.  Em resumo,  os dejetos e também boa parte do lixo  de quase 152 milhões de pessoas são jogados  nos rios, córregos, lagoas e o mar, além dos lixões a céu aberto, onde seres humanos  vivem misturados com urubus, ratos e outros animais em busca de seu sustento, o que não deixa de ser uma situação degradante.

A situação do seneamentlo básico no Brasil é uma calamidade pública, no Nordeste 71,2%  da população não tem esgoto tratado; na região norte 85,3%; e nas demais regiões mais da metade também não tem  esgoto tratado. Nas capitais e nas  cem maiores cidades do país a situação também  é  de descaso, apenas 41% da população conta com esgoto tratado. Existem  capitais, como Porto Velho  e Belém, onde mais de 90% da população não tem  esgoto tratado. Em Cuiabá são 346  mil pessoas que não contam com esgoto tratado e em Várzea Grande, 204 mil, totalizando 550 mil habitantes, poluindo o Rio Cuiabá e seus afluentes e degradando o Pantanal.

Segundo relatórios do TCU 47% das obras  do PAC saneamento, lançadas  pelo Governo Federal em 2009, estão atrasadas, paralizadas, suspensas ou sujeitas a investigações  por irregularidades.

A Campanha da Fraternidade é  uma boa oportunidade para que cristões, cidadãos, contribuintes  e eleitores possam  fazer  um balanço de como está o saneamento básico em nossos municípios, Estados e no Brasil como um todo. Em poucos meses teremos eleições municipais e  este poderá ser um ótimo ano para passar a limpo  esta  triste realidade.

JUACY DA SILVA, professor  universitário, titular e aposentado UFMT, mestre em sociologia, articulista de A Gazeta.  Email professor.juacy@yahoo.com.br  Blog  www.professorjuacy.blogspot.com Twitter@profjuacy

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016


DE IOWA A CASA BRANCA

JUACY DA SILVA

Na última  segunda feira, 01 de fevereiro,  foi dada  a largada para a corrida `a Casa Branca em 2016, símbolo do núcleo central do poder na maior superpotência na atualidade, onde a figura do Presidente  dos EUA representa este poder.

O processo eleitoral nos EUA é completamente diferente do que ocorre na maioria dos países, onde não existe uma legislação única que regule  a  escolha dos candidatos e o processo eleitoral, não existe justiça eleitoral, nem Tribunais eleitorais, muito menos juizes eleitorais, onde o voto e facultativo, para cidadãos por nascimento ou por naturalização.  Também não existem  horário “gratuito” e nem propaganda eleitoral obrigatória nos meios de comunicação de massa, os partidos e os candidatos podem pleitear e receber contribuições de pessoas físicas e juridicas, respondendo cada um pelo que acontece, não existe “caixa dois”  e corrupção praticamente é inexistente, quando ocorre algum deslize  a justiça comum e os organismos de controle, incluindo o FBI agem  com extrema agilidade, imparcialidade e rapidez.

Os pré-candidatos e depois os candidatos de cada partido escolhidos em convenção podem usar e pagar pelo uso os diversos meios de comunicação,  com destaque para  os diversos canais de TV  que promovem debates, entrevistas, análises e comentários, possibilitando aos eleitores conhecerem em profundidade as propostas de cada pleiteante a residir na Casa Branca por quatro  anos.

Os  temas que mais motivam  os candidatos e eleitores  tem sido: Saúde, Gastos governamentais, governança, tamanho do Estado, emprego  e a situação geral da economia, imigração,  conflitos internacionais, com destaque para o terrorismo, educação, questão ambietal e o desenvolvimento da ciência e da tecnologia.

Quanto aos aspectos éticos, parece que todos os candidatos sabem que corrupção é crime , que dá cadeia, em regime fechado e ai ninguém ousa imaginar em tirar  um pouco das contribuições  para aumentar seu patrimônio pessoal  familiar ou para o partido. A Lei é rigorosa e o peso da justiça muito pesado. Interessante, aqui não existe foro privilegiado, nem tratamento especial a ser dispensado pela justiça quando o crime e cometido por pessoas importantes, com ou sem mandato, todos são  julgados e condenados pela mesma lei e na mesma instância, talvez por isso o scrimes  de colarinho branco não prosperem tanto como no Brasil.

Tendo  esses aspectos como pano de fundo, podemos entender melhor como ocorre a dinâmica democrática e eleitoral neste país, onde jamais houve um golpe de estado e onde apenas dois partidos disputam eleições ao longo de mais de dois séculos e meio, sucedendo-se no poder, dentro de um Sistema que os Americanos definem  como pesos e contra-pesos, entre os poderes executivo e legislativo.  Parece que existe uma sabedoria popular entre os eleitores  que dificilmente o partido que detém o controle do executivo também tem a maioria no Congresso, que, diferente de muitos países o Poder Legislativo não se transforma  em um apêndice ou capacho do Poder Executivo.  Mesmo que um partido, Democrata ou Republicano, tenha o controle do Executivo e do Congresso,  a bancada do partido majoritário não “obedece”  as ordens do Presidente , pois existe  uma divisão clarra de poderes e atribuições.

Outro aspecto interessante, quem   é eleito para a Câmara ou para o Senado, é  escolhido pelos eleitores para ser  um legislador e um fiscal do Poder Executivo, jamais irá ser designado como ministro ou que aqui é chamado de secretário, isto é considerada uma verdadeira aberração política e jamais  uma prática a ser aceita, mesmo que não exista Lei que impeça  tal prática.

Outra  característica marcante do Sistema politico Americano, os partidos não aparelham o Estado, ou seja, a Administração Federal não é usada como mecanismo de barganha para aprovar projetos do Poder Executivo e muito menos como feudos do partido que esteja no poder na Casa Branca.

No aspecto eleitoral, cada  estado e cada partido  tem o poder de estabelecer normas que devem reger a escolha dos delegados que, em convenção nacional, irão definir o candidato de cada partido e ai, sim, passa a ocorrer a disputa entre os candidatos dos partidos democrata e republicano para ocupar por quatro ou se for reeleito por oito anos, a Casa Branca e comandar  uma máquina pública muito podrosa, cujo orçamento em 2016 é de 4,5 trilhões de dólares  e um PIB de 18,7 trilhões  de dólares.

A  escolha dos delegados de ambos os partidos obedecem  a dois sistemas, as “eleições primárias”, onde, através do voto secreto, ah,  aqui também as urnas eletrônicas não existem, por não serem o bastante confiáveis, quando as pessoas, voluntárias e livremente  inscritas em  um  ou outro partido, ou mesmo como independentes, comparecem aos locais de votação e escolhem seus candidatos. O outro Sistema é denominado de “caucus” , tipo de assembléia popular, onde todos os filiados, democratas  em  um determinado local e republicanos em outro  e ai, cada grupo que apoia  um candidato se reune  em um “canto” do local ou sala e os demais se aglutinam de acordo com suas preferências.

Por exemplo, na última segunda feira, o “caucus” em Iowa,  tinha  apenas tres candidatos pelo partido democrrata, Hilary Clinton, que foi a vencedora; Senador Bernie Sanders, e o ex--governador  de  Maryland, Martin O’Malley, que acabou tendo menos de 1% dos votos e após este  resultado abandonou a disputa, deixando apenas duas candidaturas.

No partido republicano, os eleitores tiveram que se juntar em 10 “grupinhos”  ou grupões nos espaços designados, pois o partido que  está fora  da Casa Branca  há oito anos e pretende retornar, tem 10 candidatos  e ainda tem um longo caminho pela frente para afunilar esta disputa.

Nos próximos artigos pretendo apresentar  a dinâmica da escolha e os resultados das primárias que há meses dominam o noticiário tanto da imprensa local, quanto nacional e internacional, afinal, as eleições presidenciais nos EUA interferem diretamente na política, na  economia e na geopolítica mundial e, desta forma, afeta também todos os demais países, inclusive o Brasil.

JUACY DA SILVA, professor universitário, titular e aposentado UFMT, mestre em sociologia, morando atualmente nos EUA. Email professor.juacy@yahoo.com.br Blog www.professorjuacy.blogspot.com Twitter@profjuacy

 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016


A QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

JUACY DA SILVA

O ultimo número da revista “Foreign Affairs”, cujo título em portugues seria “Assuntos internacionais”, datado de 12 de dezembro último tem um artigo, intitulado A quarta revolução industrial: o que ela representa e como responder seus desafios, de autoria de Klaus  Schwab,  que na verdade é um resumo de seu livro que acabou sendo publicado  no dia  11 de janeiro deste ano  pelo Forum Econômico Mundial, e foi o tema base do Encontro do referido forum, em Davos, na Suiça, entre 20 e 23, vale dizer, na última semana.

Cabe  ressaltar que o autor é também  fundador e atual presidente do Forum Econômico Mundial, organização que ao longo das últimas décadas costuma reunir chefes de estado, de goverrno, ministros ,  representates de organizações internacionais, pesquisadores e dirigentes dos maiores grupos empresariais do planeta, para discutirem a conjuntura econômica, financeira, social e governamental do mundo e, ao mesmo tempo, realizar análises prospectivas em relação ao futuro.

É neste contexto que tanto o livro quanto o tema que é denominado pelo autor como a Quarta Revolução industrial, que na verdade é mais do que o seu título indica, mas sim, uma revolução científica e tecnológica que ja  está  e estará pelas próximas décadas provocando grandes mudanças e debates em todos os setores das sociedades.

O livro de Schwab , tem 198 páginas e traça  um panorama histórico da evolução dos sistemas produtivos, a partir de 1784, quando ele coloca como início da primeira revolução industrial com a inrodução da máquina a vapor e as caldeiras, como substituição do trabalho braçal e possibilitou o aumento da produção e produtividade até então  executados naquela   epoca, boa parte através do trabalho escravo e animais.

A segunda revolução industrial teve  início quase  um século depois, em 1.870, com a introdução da energia elétrica, da produção em massa e a divisão do trabalho, possibilitando mais um salto qualitativo tanto no  Sistema de produção quanto nas relações de trabalho.  É  neste contexto qu surgem os escritos de Engels e Marx, com a idéia da revolução do proletariado,  uma interpretação dialética e do materialismo histórico.

A Terceira revolução industrial, segundo Klaus Schwab, ocorre em 1969, novamente  um século depois da anterior  e tem como referencial básico  o uso massivo da eletrônica,  da automação e da tecnologia da informação para tratar e processar  grandes volumes de dados, com  repercussões nos meios de comunicação, no desenvolvimento computacional e no surgimento da internet e do uso massivo de meios individuais como “smarfones”, computadores pessoais, tablets, redes sociais  e outros produtos e serviços que todos conhecemos.

A quarta  revolução industrial está surgindo exatamnte  neste momento e pode ser representada pela crescente robotização, o surgimento de robôs intelientes que podem  executar diversas tarefas e ações que até agora são quase exclusivamente  de seres humanos;  o avanço da inteligência artificial, da nanotecnologia, a internet  das coisas (mobilidade); internet das pessoas  (redes sociais); internet de dados (uso das nuvens, que em 2016 já deverá representar mais de 204 bilhões de dólares, com aumento vertiginoso de uso) e internet de serviços (comércio eletrônico; governo eletrônico, casas inteligentes, edifícios inteligents, logística inteligente).  O Autor demonstra  esta revolução  industrial e tecnológica com o surgimento de fábricas inteligentes, hotéis inteligentes e escritórios inteligentes operados, não por humanos, mas sim por robôs  inteligentes,  com   capacidade e habilidades para dialogarem com humanos.

Atualmente mais de cinco bilhões de itens trafegam diariamente pela rede de internet  e no ano 2020,  deverão se 25 bilhões ou mais, com maior velocidade e capacidade de processamento.

Essa revolução científica, tecnológica e industrial terá muitos impactos no Sistema produtivo, no comércio internacional e nacional, no Sistema financeiro, na governaça local, regional, nacional ou mundial, nas pessoas e na sociedade como um todo.

O grande ou talvez  o maior desafio é preparar  as pessoas, nas diferentes faixas  etárias e em diferentes países, com niveis educacionais, culturais, econômico e social díspares para, não apenas se prepararem para essas transformações  revolucionárias, mas, principalmente para que a desiguldade entre países, entre  pessoas e grupos sociais não aumente mais do que existe, fruto da apropriaçao dos processos e resultados desta nova revolução industrial.

Um alerta, pessoas,  classes sociais e países que não se prepararem para entender o rítimo do processo que esta revolução industrial representa poderão ficar  `a margem de seus frutos, ai sim, com aumento da pobreza, da miséria, do desemprego e subemprego.

Este  tema é fascinante e desafiador, voltarei a ele oportunamente.
JUACY DA SILVA,  professor  universitário,  fundador, titular e aposentado UFMT, mestre  em sociologia,  articulista de A Gazeta.  Email  professor.juacy@yahoo.com.br Blog  www.professorjuacy.blogspot.com Twitter@profjuac